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Carpinejar

novembro 19, 2008

Eu tenho uma amiga que adora o Fabricio Carpinejar. Dia desses passando pelo blog dele, achou isso aqui. Doce doce doce.

UM TRUQUE DAS MULHERES

Não há como esquecer uma mulher. Desista, é trabalho em vão. Nem a pior cachaça do mundo servirá como borracha. Ficará de ressaca, enxaqueca e ainda lembrando dela.

Não há como esquecer uma mulher já que ela sempre esquecerá algo em sua casa. É um segredo feminino confiado de geração a geração. Um sintoma da ubiqüidade. Uma lição que deve ter sido transmitida numa aula de educação moral e cívica que os homens faltaram para jogar futebol.

Conheceu alguma beldade que não deixou um brinco ou uma pulseira em sua cômoda?

Na primeira vez, dirá coitada e tentará correr para devolver. Mas aprenderá que não é justo sofrer e acelerar a garganta. Ela voltará para resgatar a peça. Mesmo que atrasada meia hora ao serviço, voltará com o ar cortado e lhe dará um último beijo e entenderá que o último beijo antes havia sido o penúltimo e inicia o vício de não se despedir mais.

É um lapso consciente para despertar novamente a vontade e largar pistas da exagerada existência pelos seus hábitos. Não é nenhum ato falho, acidente, está no sangue dela plantar provas e cultivar lembranças.

Quando apaixonada, será uma gincana. Mulher foi um motoboy na encarnação anterior.

Trocam um longo abraço, confessam adoração pela noite passada, ela desaparece no corredor. Você regressa ao sono. Dez minutos depois, toca a campainha.

– Desculpa, esqueci o celular!

Desconfia que ela somente reapareceu para ver o que estava fazendo. Mas não conseguiu fazer nada.

Suspira um “avoada” com ternura.

Retoma a tranqüilidade dos travesseiros e logo estala a campainha.

– Ai, desculpa, esqueci os óculos. Sem eles, não dá para agüentar o sol.

Mantém uma sonolência generosa. Ajuda a procurar, sofre com a confusão do quarto e acena em definitivo com os lábios.

Suspira um “desajeitada” com ternura.

Recolhe-se nas cobertas até que ela decide bater na porta para não enjoar a campainha.

– Não sei o que está acontecendo comigo…Esqueci a borrachinha, meus cabelos ficam loucos de manhã sem ela.

O porteiro não assimila o vaivém de mudança. Procura um caminhão de frete oculto na esquina.

Não pode dormir mais. Senta, recapitula o relacionamento e espera o próximo descuido.

Se houver uma quarta vez, é o momento de entregar o apartamento. Ou de se entregar.

One comment

  1. Esse cara é demais!



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